No início do ano de 2026 importei alguns filmes 35mm Adox CMS 20 II (5 unidades), químicos e um pequeno tanque de revelação.
Realizando pesquisas na internet sobre essa emulsão, encontrei muito debate, informação e especulação sobre a película, mas testes práticos foram poucos. Desses poucos, praticamente nenhum com digitalizações de qualidade que mostrassem todo o seu suposto potencial. Exceto, o site do próprio fabricante, com 2 fotos de carro com nitidez impressionante (imagens aparentemente digitalizadas em um scanner Hasselblad X5, de 8000dpi) e em um canal do YouTube, em alemão, intitulado “Arndts analoge Abenteuer”. Como eu sou curioso e gosto de testar e aprender coisas novas fiz algumas imagens de testes e resolvi compartilhar por aqui os meus resultados.
Sem mais delongas, vamos ao detalhamento da metodologia, equipamento usado e resultados obtidos.
Equipamento principal:
- Nikon F100
- Nikon AF-S NIKKOR 14-24mm f/2.8G ED (lente usada nos testes)
- Nikon D850 (usada para digitalizar o filme e testar a melhor abertura e posição de foco da objetiva 14-24mm)
- Nikon AF Micro-NIKKOR 60mm f/2.8D (usada para digitalizar o filme)
- Objetiva de microscópio 10x planacromática finita (usada na digitalização de detalhes do filme)
Testes realizados:
- Revelação (tempo, agitação, temperatura, etc)
- Faixa dinâmica / exposição/ latitude
- Resolução e nitidez
Revelação:
Não tenho experiência com revelação de filme fotográfico. O CMS 20 foi o primeiro que eu processei.
Pesquisei muito antes de revelar o primeiro rolo do Adox CMS 20. Este filme pode ser exposto e revelado entre ISO 3 e ISO 25, sendo que nas sensibilidades mais altas o contraste da imagem é maior, restringindo o seu uso para fotos de cenas de baixo contraste. Para cenas de alto contraste é recomendado fotografar em ISO 12 ou abaixo. Além disso, essa emulsão exige um revelador específico, o Adotech IV. Caso contrário, o contraste será altíssimo. Vi alguns resultados na web de revelação usando outros reveladores, e os resultados são terríveis: imagens com contraste semelhante a fotocópia.
Diante disso, escolhi expor e revelar o filme em ISO 12. Sensibilidades muito baixas são um pouco inviáveis, devido ao tempo maior de exposição e a exigência de tripé para fotos diurnas e ensolaradas.
No total revelei até este momento 3 filmes, usando os parâmetros obtidos de cada filme como feedback para o próximo. E, como era de se esperar, o resultado do primeiro não foi tão bom. A segunda revelação foi um pouco melhor e a terceira obtive um bom resultado.
A revelação do primeiro filme:
Realizada com a temperatura do revelador a 23°C e tempo de 10 minutos, seguindo a recomendação do fabricante para revelação em ISO 12. A agitação foi feita de forma constante nos primeiros 30 segundos, inclinando o tanque 90° na horizontal e rotacionando neste eixo lentamente. Após, a cada minuto eu fazia 1 rotação lenta, inclinando o tanque da mesma forma descrita acima. Finalizado o tempo de revelação, fiz o banho interruptor por cerca de 10 segundos. Sequencialmente, fixei por 6 minutos. Depois, lavagem por 10 minutos. Por fim, usei um agente umectante, escorri e levei o filme para secar.
O resultado: O filme ficou com a densidade elevada e com as imagens com aspecto de superexpostas. Abaixo, uma foto de um cartão de escalas de cinza, com a exposição normal.
A exposição das fotos foram corrigidas no Photoshop. Mas, devido ao baixo contraste nas altas luzes, a correção, aumentando o contraste dessas áreas claras, provocou um desequilíbrio na granulação da imagem. Áreas de sombra e neutras limpas e, áreas claras granuladas.
Ademais, a alta densidade no filme provocou na digitalização uma perda de micro contraste da imagem, semelhante ao observado em digitalização de slides, quando a luminosidade uma área muito clara da imagem invade uma área escura adjacente, por causa da limitação de contraste das lentes. Como o filme é negativo e as áreas claras são escuras quando a imagem é positivada, há uma invasão de sombras para as áreas claras.
Devido a isso, no segundo filme decidi diminuir a agitação para reduzir a densidade e melhorar o aspecto de superexposto. Nas pesquisas que fiz, descobri que quanto mais se agita na etapa de revelação, mais o CMS aumenta a densidade.
A revelação do segundo filme:
Temperatura (23°C) e tempo do revelador (10 minutos) igual ao primeiro filme. Fiz um suporte com um eixo de cerca de 15° de inclinação com a vertical com rolamento para diminuir ao máximo a agitação. O nível do revelador foi maior para manter a espiral imersa durante todo o tempo. Nos primeiros 30 segundos, rotação constante. Após, 1 rotação a cada 1 minuto e meio. Depois, interrupção, fixação e demais passos idênticos à primeira revelação.
O resultado: A densidade do filme diminuiu em cerca 20% em toda a faixa de exposição. A curva característica de densidade em função da exposição foi praticamente a mesma do primeiro multiplicada por um fator de 0,8. Consegui melhorar assim o micro contraste da imagem. Por outro lado, devido à baixa agitação, algumas, se não todas em algum grau, ficaram com manchas (faixas) que seguem o padrão das perfurações do filme. As imagens continuaram com aspecto de superexpostas, um pouco menos que no primeiro filme, e com a mesma perda de contraste nas altas luzes. Veja na imagem abaixo:
A revelação do terceiro filme:
Decidi diminuir a temperatura de para 20°C, revelando em ISO 6 (Obs: o filme foi exposto em ISO 12). Fiz isso porque percebi que nos 2 primeiros filmes havia bons detalhes nas sombras (até cerca de 5,0 pontos de faixa dinâmica abaixo da exposição normal do cinza 18%), mas detalhes que perdiam contraste nas altas luzes. Para deixar a exposição mais equilibrada, tudo bem perder 1 ponto nas sombras e ganhar 1 nas áreas claras.
Então, adicionei o revelador a 20°C durante 10 minutos. Agitação a cada 1 minuto, como no primeiro filme (aumentei a agitação para eliminar as manchas presentes na revelação do segundo filme). Depois, medi a temperatura do revelador ao final dos 10 minutos. Deu 21°C. Concluo que a revelação se deu a uma temperatura média de 20,5°C. Demais etapas, idem ao primeiro e segundo filme.
Resultado: Imagens com ótimo aspecto de exposição, com equilíbrio entre sombras e altas luzes. Pequena perda de 2/3 de ponto de alcance dinâmico nas sombras, mas ganho de 1 ponto nas áreas claras (começo do ombro da curva 3 pontos acima do cinza 18%, ao invés de 2 pontos no primeiro e segundo filme). Granulação mais fina e bem uniforme das sombras até as altas luzes, devido ao fato de não precisar corrigir a exposição no PhotoShop. Revelação bem uniforme, imagens livre de manchas perceptíveis. Densidade um pouco maior que o segundo filme, mas bem menor que o primeiro. A imagem:
Curva sensitométrica dos 3 filmes:
Faixa dinâmica, exposição e latitude:
Para esse teste vou considerar apenas o terceiro filme, já que teve melhor resultado. Usei um cartão de escalas de cinza Kodak Q-13. Fotografei em exposições de -2 EV até +6 EV, de 2 em 2 pontos. A fotometria foi feita pontualmente na escala “M”, que corresponde ao cinza 18%. Cada passo no cartão é de 1/3 de EV. Logo, o ponto “A” corresponde a 2 pontos e 2/3 de EV acima do ponto “M” e o ponto “19” está a 4 EV abaixo do “M”. Abaixo, a imagem com as diversas exposições:
Abaixo, a exposição corrigida da foto subexposta 2 pontos:
É uma imagem aproveitável, mas que não possui pretos profundos. Considerando que o ponto “M” está 2 pontos subexposto, os detalhes mais escuros que o filme pode captar (nesta situação de exposição e revelação) ficam entre 4,0 e 5,0EV abaixo da exposição normal (do ponto “13” ao “B”).
Agora, a exposição normal:
Aqui está o melhor desempenho deste filme, ao contrário da maioria, se não todos, filmes negativos coloridos, que possuem melhor qualidade quando superexpostos 1 ou 2 pontos. A imagem é limpa em toda escala tonal, do preto mais profundo até as áreas mais claras.
A foto superexposta em 2 pontos:
A partir daqui, as áreas claras começam a ficar granuladas, enquanto as escuras estão bem limpas.
A superexposição de 4 pontos:
Mais granulação. Aspecto de imagem do início do século passado.
A última, superexposta em 6 pontos:
Mais granulada que a anterior, como era de se esperar. Já aparecem sinais da falta de uniformidade da revelação e processo de digitalização, como clareamento da borda direita e sinal de costura de imagem do PhotoShop no terço esquerdo. Isso se deve ao fato de ter que aumentar bastante o contraste da imagem, amplificando essas pequenas imperfeições.
Concluindo, o Adox CMS 20 II possui uma boa faixa dinâmica, com detalhes aproveitáveis indo de -4EV nas sombras até mais de 8EV (máximo testado) nas altas luzes, possuindo um alcance dinâmico de mais de 12 pontos de exposição. Quanto à latitude, eu evitaria subexpor mais que 1 ponto e superexpor mais que 1 também, para imagens que não requeiram qualidade extrema e grandes ampliações. Se este for o caso, o filme deve ser exposto com o mesmo cuidado de um filme cromo, com tolerância de +/- 0,5 ponto.
Resolução e nitidez:
Para este teste, desenhei um alvo de resolução no AutoCad e imprimi em 1200dpi numa impressora Canon Pro-10 no tamanho 18 x 12 polegadas em um papel Canon Pro Platinum. A taxa contraste entre as áreas brancas e pretas é de 200:1.
O alvo consiste em duas barras de linhas, uma na vertical e outra na horizontal, com frequências variando de 15 até 320 ciclos por milímetro. Além disso, há um quarto de círculo com linhas concêntricas com variação na mesma frequência. Existe também duas réguas com escalas em milímetros para auxiliar no cálculo do tamanho da imagem do alvo projetada sobre o filme/sensor de imagem. Na parte inferior existem quadros quadriculados nas frequências de 10 a 100 e 115 ciclos por milímetro. E, por fim, na lateral direita há sete linhas de letras com tamanhos diferentes, semelhantes a testes de visão.
Antes de testar o filme em si, fiz vários testes com a objetiva na câmera digital Nikon D850 para saber qual a abertura mais nítida e de maior resolução e qual a melhor posição de foco. Para a focagem, imprimi uma pequena régua e adesivei no anel de foco da objetiva para que eu pudesse repetir o mesmo foco com precisão na câmera de filme Nikon F100:
O ponto “0” é o foco mínimo na lente.
Usei a posição 14mm para as fotos de teste. A câmera é posicionada a uma distância tal que a relação entre o tamanho do objeto, o alvo no caso, e a imagem sobre o sensor/filme tenha uma relação exata de 100:1. E como garantir isso?
O alvo foi impresso para ser 100x maior que a imagem no filme/sensor. O 1mm na régua do alvo tem 100mm na sua impressão. A Nikon D850 tem exatos 230 pixels por milímetro, ou 115 ciclos/mm. No alvo tem um quadriculado com essa frequência. Como a D850 tem um sensor matriz de Bayer, ao projetar esse quadriculado sobre o sensor, dependendo do ajuste, os quadriculados pretos são projetados sobre os pixels vermelhos/azuis (mascarando-os) e os brancos sobre os pixels verdes. Isso acaba gerando uma cor falsa de verde nesse quadro de 115 ciclos/mm, como visto na imagem abaixo (o teste é feito no modo “Live View”).
Essa cor falsa verde só ocorre quando a relação de redução é de 100:1, caso contrário apareceria um padrão moiré, como no quadro abaixo do 115, o 100. Outra forma de confirmar a precisão do ajuste é abrindo a imagem no PhotoShop e, sem nenhuma correção de distorção da lente, medir a distância em pixels em 1mm da imagem da régua. Tem de dar 230 pixels.
Após esse ajuste de posição da câmera, medi a distância do alvo de teste até a marcação de plano focal do sensor. Deu 1565mm. Agora é só repetir essa distância entre o alvo e o plano focal do filme na F100.
Quanto ao foco crítico, abri o modo de visão ao vivo da DSLR e fiz manualmente a focagem com indicação de pico de foco para várias aberturas. Fotografei em cada uma delas. Abri as imagens no editor e concluí que as aberturas de maior resolução e nitidez eram a f/4.5 e f/5.0 e a melhor posição de foco era 36,5mm na régua adesivada na lente.
Notem, na imagem anterior, na barra horizontal de resolução, a cor falsa (verde) que surge no limite de resolução do sensor da D850 (115 ciclos/mm). A partir desse ponto, devido ao efeito moiré, a frequência ao invés de aumentar, diminui. Como essa câmera não possui filtro “low pass”, o moiré continua se propagando até o limite de resolução da objetiva naquela abertura, cerca de 260 pl/mm (pares de linhas por milímetro). Então, em tese, a maior resolução que eu poderia alcançar no CMS 20 II seria abaixo desse valor de 260.
Agora era só fotografar com o Adox. Como eu não tinha certeza se o foco da F100 iria bater exatamente com o da D850, fiz um bracketing focal, iniciando na posição 35,0 até 38,0mm, com incrementos de 0,50mm, além de 1 foto em foco automático.
Depois de revelado o primeiro filme, o melhor foco pareceu ser o de 37,0mm, com pouquíssima ou nenhuma diferença para os 36,5 da D850.
A imagem com o melhor desempenho foi feita no terceiro filme, com abertura f/4.5 e posição de foco 37,0mm.
A questão agora era: como digitalizar para mostrar todo o potencial da emulsão, já que a digitalização é um grande fator limitante?
Usei uma lente macro Nikon 60mm, que possui excelente nitidez, com tubo extensor. Ao fotografar o alvo gravado no filme com a D850, vi que a máxima separação de linhas que eu conseguia distinguir ficava entre 160 e 180 pl/mm. Independentemente se eu colocasse um comprimento de tubo extensor maior para ampliar mais a imagem, não mudava. Esse era o limite óptico de resolução de digitalização. Analisando e fazendo cálculos, cheguei à conclusão que o melhor desempenho era fotografar o filme com uma relação de ampliação próxima de 2:1 e a abertura da lente no meio termo entre 5.6 e f/8. A abertura maior (f/8) possui maior nitidez de borda a borda, mas menos resolução. A f/5.6 maior resolução no centro da imagem, menor contraste e perda de nitidez nas bordas. A resolução óptica de digitalização ficou em cerca de 170 pl/mm (8600dpi), equivalente a 100MP em 36x24mm.
O quadro digitalizado é composto por uma costura de 18 imagens digitais, gerando uma foto de 11378dpi. Depois da imagem tratada, foi reduzida para 8670 dpi, que é igual a uma imagem de 12288x8192 pixels em full frame, ou 100,7MP. Abaixo, a imagem de 25MP (6144x4096):
Link para a imagem de 100MP, em full frame (Sugiro baixar e abrir num editor ou visualizador de imagens para ver melhor):
Além disso, fotografei cortes usando uma lente de microscópio acoplada a tubo extensor na D850. A resolução óptica desse sistema salta para mais de 20000dpi. Assim, consegui visualizar o limite de resolução que eu atingi com o Adox CMS 20 II. Corte abaixo visto a 12700dpi, ou 216MP em 36x24mm:
Link para o corte a 25400dpi:
Desse modo, o limite de resolução que eu consegui atingir com o filme foi de 220 ciclos/mm.
Adicionalmente, fotografei mais 2 cenários. Aqui está o primeiro em 25MP (14mm, f/5.0, 1/4 seg):
Link para a imagem de 100MP:
Detalhes digitalizados com objetiva de microscópio (reduzidos para 12700dpi):
Segundo cenário em 25MP:
Link para a imagem de 100MP:
Cortes a 12700 dpi (216MP):
E, finalmente, o detalhe da área central da imagem a 25400 dpi (no link):
Conclusão da minha percepção sobre o filme:
O CMS 20 II é uma película de alta resolução e nitidez, baixa granulação, boa faixa dinâmica e estreita latitude de exposição (no caso de fotografar com a qualidade máxima). Ideal para grandes ampliações, gerando uma imagem com nível de detalhes só vistos em formatos maiores que 35mm.
A revelação é um desafio, um pouco complicada para acertar o ponto ideal. Não sei se por falta de experiência minha ou por causa do seu processo específico em si.
A exposição na câmera deve ser cautelosa, pois um erro, apesar de poder ser corrigido, aumentaria a granulação imagem, perdendo a essência da proposta do filme de ser o menos granulado do mundo.
