Tem um tempão que não escrevo aqui, já era hora. Vamos falar da dupla “Empilhar e Esticar”.
“Esticar” a imagem é o segundo fundamento (em ordem, não em importância) do processamento de astrofoto. Pra facilitar a discussão, vamos começar por esse fundamento antes de abordar o empilhamento. Esticar é transformar esta imagem:
A primeira imagem é o que vemos no céu noturno, e que fotografamos com nossas câmeras. Quando abrimos a imagem em qualquer programa de edição, é aquilo que aparece. Veja que na imagem o histograma está todo encostado no lado esquerdo, o que significa que todo nosso sinal (fora umas poucas estrelas) está lá. Talvez seja necessário aproximar bem a imagem pra ver o lado esquerdo, pois é uma faixa bem estreita. Veja também que a “curva” da imagem é linear. Diz-se que a imagem é linear.
Na segunda imagem, vemos que o que era uma tirinha na esquerda agora ocupa parte bem considerável do histograma. Isso foi conseguido esticando a parte da esquerda do histograma para o centro, que é mais visível para nós. Isso tem que ser feito de forma bastante controlada, pra não estourar as luzes nem cortar detalhes que são bem escuros.
Ainda na segunda imagem, vemos aplicada uma curva S na imagem. Essa curva S é usada para aumentar o contraste entre uma parte mais clara e uma parte mais escura. O ponto de simetria é a inflexão, onde a curva muda de côncava para convexa (matematicamente falando, onde a derivada muda de sinal). Tudo o que está à esquerda do ponto de simetria vai ficar mais escuro, e tudo à direita vai ficar mais claro.
Em uma foto “terrestre”, este ponto é aplicado razoavelmente na parte central do histograma; em astrofoto, este ponto é bastante próximo ao lado esquerdo, dificultando um pouco a manipulação da curva. Programas dedicados a astrofoto, tais como o Siril ou
Pixinsight
possuem ferramentas que dão zoom nesta região, dando mais controle no que fica do lado esquerdo e direito do ponto de simetria. Estes programas até oferecem ferramentas de esticamento automático (auto-stretch) e funções de transformação de tela, que permitem ver os detalhes esticados de uma imagem ainda em estado linear. Mas qualquer programa de edição com curvas é capaz de esticar uma astrofoto. O controle do que fica nos lados esquerdo e direito do ponto de simetria é extremamente importante, e pode ser a diferença entre cortar detalhes, zerando o valor de pixels, estourando detalhes (estrelas supersaturadas) ou uma imagem corretamente esticada. Esta operação pode ser feita em várias passadas, cada uma aumentando um pouco os detalhes escuros sem aumentar os detalhes claros.
Um dos pontos-chave aqui é ter um bom sinal do lado esquerdo do histograma. É aí que entra o fundamento do Empilhamento, discutido a seguir.