“Eles ouve a verdade e fica revoltado
Mas naquela foto você é a criança perto do urubu
Ou Sebastião Salgado?
É melhor desistir ou viver humilhado?”
Xapralá – Djonga
Primeiramente quem fez essa foto não foi Sebastião Salgado.
Essa foto foi feita por Kevin Carter em 1993 no Sudão.
Achei interessante começar essa analise com o trecho dessa música do Djonga para tentar mostrar a dualidade que se tem na interpretação de fotografias e o dilema que os fotógrafos passam durante alguns/vários momentos em seus trabalhos de registrar guerras e grandes crises humanitárias.
Em consequência da Segunda Guerra Civil do Sudão, que durou de 1983 a 2005, houve épocas de crise e fome extrema no Sudão.
EM 1993, mais especificamente no mês de março, o fotografo foi para o Sudão acompanhado de seu colega João Silva, do grupo de fotojornalistas The Bang Bang Club (grupo que terá sua própria história descrita em um momento futuro).
No trabalho de separou com a cena que observamos. Uma criança, que ele acredita ser uma menina, sozinha em uma estrada cujo destino era uma base e apoio da Nações Unidas (UN). Os pais da criança estavam pegando comida em um caminhão da UN e a deixaram momentaneamente.
O fator que mais impressiona nessa cena o abutre, que pacientemente espera.
Uma clara representação da fragilidade do ser contra a ordem da natureza.
A criança esquelética a beira da morte, e o abutre, que se alimenta de mortos.
É uma foto forte. Ela choca pelo fato de ser uma criança. Na nossa sociedade, nós como espécie, temos as crianças como indefesas, a futura geração que deve ser protegida.
Demonstrar essa fragilidade revela nossa própria fragilidade. Revela o quanto somos indefesos.
Traz a tona o pensamento “Poderia ser eu. Poderia ser a minha criança.”
Uma foto que é verdadeiramente indigesta.
Ai que trago o trecho da música.
Nessa indigestão.
“Eles ouve a verdade e fica revoltado”
Essa verdade dos acontecimentos da guerra e da fome, uma verdade que, se não fosse pela fotografia, provavelmente aconteceria e seria, com muita sorte, somente uma nota nos jornais.
“Mas naquela foto você é a criança perto do urubu
Ou Sebastião Salgado?”
Um ponto que me incomoda é ele falar que é um urubu. Meu lado de observador de aves não pode deixar passar. É um abutre.
Enfim.
Houve comentário no passado feitos pela Susan Sontag sobre o estilo de fotografia feito pelo Sebastião Salgado de que ele se especializava a miséria do mundo. Que ele fazia estética da miséria.
Curiosamente o Sebastião Salgado é o fotógrafo que eu mais estudo, e em uma entrevista ele rebateu esse comentário
Em uma entrevista com o John Berger, ele relatou sobre seu trabalho para o livro Êxodos:
“Como você diz, para mim há muita esperança aqui. Todos os migrantes que fotografei tiveram uma vez uma vida estável. Agora, estão sofrendo uma transição, e tudo que tem com eles é só uma fatia de esperança. E é com essa esperança que estão tentando conseguir outra posição estável na vida.
Muito poucas das pessoas fotografadas são responsáveis pela situação na qual se encontram agora. A maioria deles não compreende por que estão na estrada com milhares de outras. Perderam suas casas até o fim do último tijolo, por que foram bombardeadas, queimadas, destruídas, e eles estão na estrada e não compreendem a razão. Não são elas mesmas o motivo de estarem lá, são outras coisas, e é entre essas outras coisas que temos que escolher.”
Essa noção, compreensão de que a criança e mais todos aqueles ali presentes naquela migração não tem culpa por estarem ali, é o que posso chamar de humanismo.
Compreender, não julgar.
Mas também não aceitar.
O ponto, a chave da questão, após apresentar essas ideias, essa visão de compreensão, é a seguinte:
Podemos olhar para essa foto e pensar pela perspectiva do abutre, e colocar o fotógrafo na mesma posição de alguém que somente observa, espera.
Você somente observa enquanto a sociedade se desfaz, esperando pacientemente para pegar o seu quinhão de carniça? E se alimentar da desgraça?
Essa é a visão direta que se tem da cena.
Supõe-se logo que o fotógrafo apenas observou, não interferiu. Apenas se aproveitou da desgraça/situação para fazer uma foto.
Mas quando nós abandonamos a superficialidade e caímos nas profundezas da história, nos é revelado detalhes. Verdades escondidas em primeiro momento.
Houve primeiramente um acordo de não interferência.
Como a Susan Sontag descreve em seu texto:
“Fotografia é, em essência, um ato de não intervenção.
Parte do horror de lances memoráveis do fotojornalismo contemporâneo, como a foto do monge vietnamita que segura uma lata de gasolina, a de um guerrilheiro bengali no instante em que golpeia com a baioneta um traidor amarrado, decorre da consciência de que se tornou aceitável, em situações em que o fotógrafo tem de escolher entre uma foto e uma vida, opta pela foto”
Susan Sontag, Na Caverna de Platão
Sobre Fotografia, PG 22
O fotografo está lá para registrar, contar uma história.
O fotografo não consegue salvar todos.
Em um evento aonde morrem dezenas de pessoas por dia, como ele conseguiria?
Porém a consciência de que ele optou por uma foto ao invés de uma vida fala mais forte. A indignação de uma sociedade, hipócrita na minha opinião, fala muito mais alto.
Kevin Carter foi altamente criticado por isso, mesmo tendo sido noticiado no jornal New York Times, jornal aonde a foto havia sido publicada originalmente, que a criança havia alcançado com a família a base da UN.
A superficialidade dessa indignação soterra o fato de que os fotógrafos estavam sendo escoltados por soldados rebeldes do SPLA, ou Exercito Popular de Libertação do Sudão, que tinham a função de protege-los e de monitorar suas atividades.
Ele fez o máximo que poderia ter feito. Como é relatado no livro The Bang Bang Club pelo João Silva, Kevin estava frenético, e estava limpando os olhos com sua bandana, como se estivesse tentando limpar a visão que estava fixada na sua mente.
Falava sem parar sobre o que tinha visto e como estava pensando na sua filha, em como ele não conseguia esperar para voltar para casa e abraça-la.
Impossível não impactar.
Quando João foi atrás para também registrar, Kevin explicou que havia espantado o abutre. Era o máximo que podia fazer.
“É melhor desistir ou viver humilhado?”
Kevin Carter viveu humilhado, criticado de forma desproporcional pela foto, atormentado profundamente pelas cenas que presenciou nas guerras, até desistir e se entregar. Em 1994 ele ganhou o prêmio Pulitzer na categoria de fotografia e alguns meses depois tirou sua própria vida.
Uma única foto que mudou tudo.
Muitos anos depois foi descoberto que a “menina” na verdade era um menino, que sobreviveu aquele evento e foi tratado na base da UN, porém faleceu em 2007, possivelmente de malária.
Não se pode/consegue salvar todos.
Agora pergunto: quantos conseguiriam registrar a cena e não interferir? Quantos não ficariam abalados com aquilo?
Uma foto é muito mais do que uma mera imagem. É a junção de toda uma história, um contexto. Houve um antes, houve um depois, e houve um motivo para os fatos terem acontecido daquela forma.
E esses fatos não podem ser ignorados.
Acho que essa foi a maior analise que fiz até o momento.
Definitivamente foi a que eu mais me empolguei, foram necessárias muitas pesquisas, a compra e leitura de um livro e a releitura de dois outros livros
