Debí tirar más fotos: memória e resistência

por volta das 18h do próximo domingo (horário de los angeles, 22h daqui), quando pisar no palco montado para o show do intervalo do superbowl, benito antonio martinez, o bad bunny, terá se consolidado em definitivo como o artista mais relevante da música atual.

não bastasse liderar nos últimos anos todos os rankings globais de artista mais ouvido, não bastasse ter sido convocado pra comandar o show do evento mais visto anualmente no mundo, bad bunny acaba de faturar o grammy de álbum do ano - e tudo isso sem jamais ter gravado uma música em outra língua que não o espanhol.

mas esse é um fórum de fotografia, não de música.. e já que nossa “playa” são as fotos, eu quero dizer como a capa de “debí tirar más fotos” me toca profundamente, tanto quanto a brilhante música de benito. não achei na internet o crédito do autor, mas é preciso dizer que essa fotografia é um gol de placa, à altura do feito alcançado pelo artista.

ao contrário da opulência esperada para uma capa do “grammy de álbum do ano”, o que bad bunny entrega é uma fotografia banal de um quintal com o objeto de design mais onipresente e invisível do mundo: 2 cadeiras monoblocos. “devia tirar mais fotos”, diz o título do álbum, quase como se fosse uma legenda, uma leitura semiótica muito direta dessas cadeiras vazias. o “studium” da foto é uma antítese do “isso foi” de barthes: em barthes a fotografia pretende eternizar o que só existiu uma vez, e portanto, de algo que se foi, que existiu e acabou. nossa foto escancara a falta, denuncia o que não existiu, o encontro que não aconteceu. não houve o “momento decisivo”, porque ele não foi registrado; sobrou o cenário, o quintal, a cadeira vazia. as cadeiras são os fantasmas de uma conversa que não foi eternizada.

ao mesmo tempo, uma foto que se centraliza na ausência comunica um signo muito forte, que vai de encontro ao mundo do scrolling, do algoritmo e da espetacularização da intimidade, recusando-se a transformar a memória afetiva em mera mercadoria visual para consumo rápido. é o anti-selfie, que rejeita o foco no sujeito e reafirma que a verdade não está na imagem capturada, mas na memória daquilo que escapou à captura.

são tantas camadas que poderia escrever laudas e mais laudas sobre essa foto… mas antes gostaria de saber: o que vcs acharam da capa do álbum do ano?

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Interessante, muito interessante. Gostei do debate. É um pensamento bem comum recentemente, de se achar que não se tirou fotos suficiente. Nos shows que eu tenho ido ver, eu evito propositalmente tirar fotos, pra me concentrar no momento, em gravar mais na mente e menos no celular. Porque, convenhamos, a gente fotografa, talvez posta na rede social e depois esquece. Já a memória, se bem cuidada, dura pra sempre. Não ouvi ainda o disco do Bad Bunny (você me deixou curioso), mas minha maneira de viver a vida está um pouco mais como o Rush:

Tempo, Fique Parado / ### Time Stand Still

Viro minhas costas para o vento / I turn my back to the wind
Para recuperar meu fôlego / To catch my breath
Antes de começar novamente / Before I start off again
Conduzido / Driven on
Sem um momento à perder / Without a moment to spend
Para passar uma noite / To pass an evening
Com uma bebida e um amigo / With a drink and a friend

Eu deixei minha pele ficar fina demais / I let my skin get too thin
Eu gostaria de fazer uma pausa / I’d like to pause
Não importa o que eu finja / No matter what I pretend
Como algum peregrino / Like some pilgrim
Que aprende a transcender / Who learns to transcend
Aprende a viver / Learns to live
Como se cada passo fosse o último / As if each step was the end

Tempo fique parado / Time stand still
Eu não estou olhando para trás / I’m not looking back
Mas agora eu quero olhar ao meu redor / But I want to look around me now
Tempo fique parado / Time stand still
Ver mais das pessoas / See more of the people
E dos lugares que me cercam agora / And the places that surround me now
Tempo fique parado / Time stand still

Congele esse momento / Freeze this moment
Um pouco mais / A little bit longer
Faça cada sensação / Make each sensation
Um pouco mais intensa / A little bit stronger
Experiência nos escapa / Experience slips away
Experiência nos escapa / Experience slips away
Tempo fique parado / Time stand still

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Mas sobre a capa em si, representa maravilhosamente a sensação. Só acho que a festa foi muito boa pra ter esquecido de tirar fotos!

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isso é muito interessante, felipe. parece uma contradição: nós denunciamos, a todo momento, a banalização da fotografia. somos inundados por milhões de fotos todo dia: todos tiram foto de tudo, o tempo todo, e esquecem de “viver o momento”. como exaltar então algo que propõe exatamente isso, “que se tire mais e mais fotos”?

parece existir uma contradição, mas não há. voltemos à fotografia da capa do disco: ela opera exatamente aí, nessa tensão que há entre o excesso de imagens e a escassez de memória. perceba que ela não é um convite à superficialidade, mas sim um lamento sobre a impermanência, um reconhecimento doloroso da fragilidade da memória humana. eu preciso citar um conceito de susan sontag em “sobre a fotografia” que é o da “apropriação do mundo”: o fotógrafo se “apropria” da coisa fotografada. essa ideia de sontag lá dos anos 70 evoluiu na modernidade para o modo como a fotografia se transformou em objeto de consumo, onde cada clique é uma compra, uma forma de adquirir uma experiência em vez de apenas vivê-la. queremos possuir o presente, e a ânsia de arquivar a experiência acaba por substituir a própria vivência, esvaziando a memória e tornando-a um inventário de ausências.

mas volto à sontag, pois ela tb nos dá a resposta para essa aparente contradição: a fotografia seria a única maneira de transformar o tempo (que é fluido) em objeto (que é sólido e, portanto, pode ser guardado). “deveria ter tirado mais fotos” não se refere à essas fotos posadas, perfeitas e editadas para o instagram, aquelas que, DE FATO, banalizam a experiência. ou àquelas dezenas de fotos que tiramos em um lugar não para lembrar dele, mas para EXIBIR AOS OUTROS que ESTIVEMOS NELE. sontag se refere aqui à fotografia como uma trincheira contra o esquecimento, de modo que o “clicar obsessivamente”, que parece fútil agora, pode se revelar com o passar dos anos como a única âncora que nos conecta a quem fomos. então, de certo modo, a banalidade da imagem é redimida pela sua função de testemunho. pior do que viver a vida através de uma lente é chegar ao fim da festa e perceber que, sem a lente, a festa desapareceu para sempre.

o ato de fotografar se converte em um ato de amor e cuidado. talvez a “contradição” se resolva assim: nós não queremos “mais fotos” para postar ou exibir; nós queremos mais fotos para, daqui a 30 anos, podermos revisitar quem fomos. o desejo de “tirar mais fotos” é o desejo de reencontrar o caminho de volta para os momentos onde fomos felizes, como na música do rush que vc citou. a sua música e a fotografia do disco de bad bunny são então, e no final das contas, a mesma coisa: o nosso abraço desesperado no tempo, uma tentativa de retorná-lo. insisto: o resgate da importância da fotografia em um mundo que, o tempo todo, a banaliza. essa é a ideia genial que a música expressa, algo que a foto do disco traduz tão bem.

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aliás, estamos aí na semana do desafio do grão/ruído, e isso me remete a outro golaço dessa foto, que é sua estética de fotografia analógica. parece foto de filme (e talvez tenha sido tirada em filme mesmo, por que não?). esse é outro ponto muito feliz da imagem, pq explora esse território da memória e da impermanência. ela reivindica, com intenção e autoridade, uma textura do passado. o rastro da “aura” de walter benjamin, aquela “aparição única de uma distância, por mais próxima que esteja”. quando simula a corrosão do tempo sobre o negativo, a imagem recusa a assepsia fria do digital e resgata a autenticidade da nostalgia, transformando uma cena banal de quintal em um documento melancólico que, como dizia benjamin, “nos devolve o olhar.” não é uma cena comum, é um documento AFETIVO. outro gol de placa!

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Fui criado na casa de meus pais com um quintal que poderia servir de cenário para esta foto. A casa de meus avós maternos idem, avós paternos idem, meus sogros idem. A foto resgatou memórias em mim, no sentido amplo, carregada sim pelo viés afetivo.

Dizem que “sua fotografia reflete o que você acumula na vida": emoções, o que viveu, suas histórias, bagagem cultural, etc., mas assim como quem faz, também quem consome fotografia está totalmente dependente destes atributos. A mesma foto que me trouxe boas recordações/emocões foi parar na lixeira de outros celulares.

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Fui em Sorocaba, shopping , 06/02, comprei o livro Sobre Fotografia Susan Sontag! Ver discussão no site, legal mesmo…

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Você me lembrou de um episódio de Black Mirror chamado Eulogia. Pra quem não viu, recomendo ver. Black Mirror (pra quem nunca ouviu falar) é uma série de TV com episódios desconexos sobre tecnologias futurísticas e as consequências. Nestw episódio, inventam um aparelho onde a pessoa pode “entrar” nas fotos.

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Fico impressionado com todo esse hype em cima desse cara… Nunca ouvi falar dele. Meu gosto musical deve estar fora da curva…

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Fui ouvir o disco dele e detestei. Mas o show no Super Bowl foi bem bacana.

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como coloquei no título do post, são 2 as dimensões narrativas que me encantam na foto: memória e resistência. elas são o studium e o punctum de barthes, aquilo que toda boa foto deve ter.

o “studium”, aquilo que te conecta de imediato com a mensagem, é representado pelas cadeiras vazias no quintal e a dimensão da memória afetiva que elas evocam. já o “punctum”, aquele detalhe que te espeta e fere como uma flecha, é principalmente a imagem da bananeira no quintal, ou seja, sua expressão política de resistência.

falei antes da primeira, falo um pouco agora da última.

“se queres ser universal, comece pintando sua aldeia”, nos ensinou o escritor russo tolstói. quando vemos na foto um quintal igual a qualquer quintal do brasil, méxico, uruguai, cuba, venezuela, porto rico, colômbia (ou qualquer outro país latino-americano), o que o autor da fotografia quer nos mostrar é uma narrativa que nos une a todos em 1 signo facilmente reconhecível, porque fruto de nossa memória COLETIVA. o carlos reconheceu, eu reconheci, certamente um nativo de qualquer um desses países reconhecerá de imediato a cena. por outro lado, se vc mostrar essa foto a um europeu, a um norte-americano, a associação com uma memória afetiva é improvável, eu diria impossível até. ou por outra: para o europeu e o norte-americano, a cena parecerá algo alienígena, algo estranho. a bananeira, o quintal, tudo ali é exótico. estabelece-se, portanto, um nítida fronteira cultural.

pois aqui entra a dimensão política: o discurso da foto é decolonizador. porto rico foi colônia da espanha e é colônia dos estados unidos, aliás como de resto fomos e somos ainda nós todos: colônia. a foto e a música essencialmente caribenha de benito gritam para o mundo o não-apagamento da cultura e da história de seu povo. a banana, a bananeira, funcionam tanto como signos de identidade e unidade latinas (pra comer banana, um norte-americano precisa exportá-la, geralmente do caribe; pro resto da américa, a banana está no quintal) quanto signos da exploração colonialista (boa parte dos países da américa latina tiveram culturas de banana no periodo colonial). trazendo para o território cultural, a foto diz ao olhar colonial: “você pode comprar minha música, mas não consegue decodificar minha alma”. o “quintal” é um código secreto compartilhado entre os oprimidos.

o gringo vê na foto “exotismo”, um quintal descuidado; o latino vê o oposto: o domingo em família, o cheiro do churrasco, a proteção do lar e da amizade. essa incapacidade de tradução é uma forma de resistência: mantém uma parte da identidade cultural a salvo da mercantilização total. foto e música se complementam como atos de revolução, pq se infiltram por dentro da indústria musical anglo-saxônica e regurgitam nela o ORGULHO LATINO. e as cadeiras vazias operam como um convite para se entrar na festa, na revolução. a imagem como discurso político transcende a mera representação para tornar-se uma praxis visual contra-hegemônica. o disco (que, insisto, é espetacular, merece o grammy e muito mais) está recheado de canções políticas, que são muito bem representadas pela sua imagem de capa. “la mudanza”, “turista”, “nuevayol”… mas sobretudo “lo que le pazó a hawaii”, que expõe muito claramente o medo de que aquele quintal com cadeiras de plástico (a memória autêntica e coletiva de todo um povo) seja substituído por um resort de luxo estéril.

esse é o ponto que o “quintal” exótico e propositalmente “descuidado” expõe, ele recusa a assepsia do olhar colonial, ele se nega a ser o signo eterno de subdesenvolvimento para firmar-se como território de soberania estética. é uma alegoria do sul global que pretende subverter a lógica do capital cultural, convertendo o que é uma memória dos periféricos em ferramenta simbólica potente de luta de classes. a foto também não maquia a precariedade ou a simplicidade, pelo contrário até; ela apresenta a materialidade crua como fonte de dignidade, não de vergonha. ela a exibe, com orgulho! mas é um orgulho diferente da fetichização da pobreza (o “glamour da favela” para turista ver, comum no rio de janeiro, por exemplo). ela inverte a geopolítica do gosto. em vez de o latino tentar copiar o loft de “neuvayol” (música que abre o disco) para parecer “sofisticado”, ele obriga o centro do capitalismo a olhar para o quintal porto rico e reconhecer ali uma potência estética RICA E AUTÔNOMA. é a periferia deixando de ser coadjuvante para se tornar o centro, epistemológico, da narrativa.

foi sobre isso o show do intervalo de ontem: a transformação da dor em potência criativa. arte, identidade, e sobretudo orgulho. aliás, que show histórico, memorável. como foi bonito ver uma autêntica celebração da riquíssima cultura latina.