Foram ao casamento com o mesmo vestido!

Outro texto do Ivan de Almeida

ele tbm abriu um tópico sobre o assunto em 2009, com uma excelente participação. Abri um novo tópico pq o original esta na parte de “artigos, tutoriais e dicas”,
e acho que esse assunto estaria melhor no “Discussões sobre fotografia”.

e aqui o link do blog

O texto levanta uma boa reflexão sobre o “olhar”
deixo aqui para um debate posterior.

Foram ao casamento com o mesmo vestido!
Ivan de Almeida
abril de 2008

Duas mulheres foram a uma festa. Quando uma delas chegou, encontrou a outra usando o mesmo vestido. E o vestido era bonito, vistoso, não dava para disfarçar… todos repararam.

Uma copiou a outra?

Não. Só, por acaso, compraram na mesma loja do bairro onde moravam.

Um fotógrafo posta uma imagem em um site de fotografia. Outro posta uma foto quase idêntica. Variações derivadas de 1/3 de ponto de fotometria, talvez, pequenas diferenças de enquadramento, e um a fez com uma DSLR, outro com uma superzoom (isso aconteceu de verdade hoje). Um alega que a fez antes e o outro a teria visto no LCD da câmera, mas o Exif do outro informa horário 4 minutos antes…

No debate, inevitável, foi mencionado ambos terem feito o mesmo passeio fotográfico, e o enquadramento da foto em ambos os casos apenas descrevia o objeto. De frente, plano, chapado. Abordagem direta. Um copiou o outro?

Ou trata-se de um caso no qual ambos entregaram a responsabilidade de sua fotografia ao objeto fotogênico? Ou seja, compraram os mesmos vestidos porque a loja os fez iguais …

Uma fotógrafa, amiga, mostrou certa vez uma foto. No site em que mostrou, foi elogiada, e coisa e tal. Disse a ela que sua foto era demasiadamente dependente do objeto. O objeto interessante criava interesse para a foto. Ela reclamou de minha observação, mas cerca de uma semana depois veio me contar que outra fotógrafa, no mesmo passeio fotográfico realizara uma foto praticamente idêntica. Inicialmente aborreceu-se com a outra, mas depois compreendeu terem ambas sucumbido ao objeto, e, estando todo interesse concentrado nele, qualquer um faria a mesma foto.

São coisas que acontecem. E acontecem porque o fotógrafo entrega ao objeto interessante a sua fotografia. Muitos fotógrafos agem como caçadores de objetos interessantes, como se isso fosse fotografar, e as fotos resultantes dessa caçada pouco mais contém que próprio objeto. Quem fez a foto? O objeto? E no caso das duas mulheres, quem fez o vestido? O que temos nesses casos são fotografias com escassa construção fotográfica, temos “atos de registro”.

Porque parece haver na fotografia uma polaridade. Um dos pólos é o objeto, o referente. O outro o ato fotográfico. Nesses casos, temos um referente ativo em demasia, e um ato fotográfico apassivado. Muitas fotografias são assim. Não notamos nelas uma narrativa consistente, um ponto de vista, algo que só esteja na fotografia, não esteja no objeto. O que há nessas fotografias é o mesmo que havia lá fora da câmera escura.

Um fato pode ser contado de muitas maneiras, e todos conhecemos bons contadores de casos. O mesmo caso pode ser maçante ou interessante, dependendo de quem conta. Assim também na fotografia. É na narrativa que a fotografia ganha autonomia e torna-se diferente de uma pura reprodução de algo.

Obrigado por compartilhar.

Reflexão interessante, Paulo… nossa, saudade dos textos do Ivan… gostava quando filosofava nos comentários no Esquina

assim como um contador de histórias habilidoso pode transformar um fato em uma narrativa envolvente, a fotografia também pode ganhar autonomia e se tornar mais do que uma simples reprodução visual. É na narrativa que a fotografia encontra sua singularidade, sua capacidade de transmitir emoções, contar histórias e expressar um olhar pessoal sobre o mundo.

Só lembrando que o blog do Ivan ainda está on-line com muito bom conteúdo.

Quando vejo (recebo) uma foto faço um paralelo com um presente.

Um presente comum em uma embalagem fodástica agrada. Um presente fodástico em uma embalagem comum também. Mas, no final, a embalagem é descartada e o que fica mesmo é o conteúdo.

O mérito é todo do Ivan

Eu participei do esquina mas não nessa época, realmente eu sinto falta de algo com mais conteúdo.

vou colocar dois videos que gosto muito, já postei eles em outros tópicos, mas aqui eles caem como uma luva.

Mas como voce consegue diferenciar o conteúdo da embalagem?

Pode parecer uma pergunta boba e até provocativa, mas não é a minha intenção,

Pq um pesente tem seu conteúdo e embalagem bem distintos e uma fotografia não,

É um tanto sutil e essa sutileza as vezes não é percebida, para se entender uma narrativa, principalmente aquelas que quebram paradigmas, é preciso tbm entender de certos códigos e linguagens que sem um estudo passa despercebido, quantos gênios só foram reconhecidos décadas e até séculos após a suas mortes,

Vermeer, Van Gogh, Bach

“Quanto mais se conhece mais se aprecia”

Oi pkawazoe, comentando seus comentários.

/*
<…> Pq um pesente tem seu conteúdo e embalagem bem distintos e uma fotografia não <…>
*/

Quando mencionei o paralelo com conteúdo/embalagem foi no seguinte sentido, que acho mais fácil explicar com exemplos.

Exemplo 1:


Embalagem: fodástica. Foco cravado, balanço de branco perfeito, nitidez padrão Fifa no centro e nas bordas, sombras e altas luzes controladas, possivelmente com camera full frame mirrorless de ultima geração, 50MP, lente prime f1.2, etc., etc., etc.

Conteúdo: comum. Uma coleção de objetos. Para se apreciar por alguns momentos apenas e passar adiante, o que seria equivalente ao descarte da embalagem que citei.

(Não estou depreciando a foto só referência de boa tecnica/equipamento e um registro comum de conteúdo)

Exemplo 2:


Embalagem: simplista. Assunto principal fora de foco, nitidez sofrível por conta do grão do filme, sobras profundas que impedem ver detalhes no assunto, película ao invés de 50 megapixel, pessoa saindo da foto ao invés de entrando nela, etc., etc., etc.

Conteúdo: fodástico. Embalagem descartada e o conteúdo para ser apreciado ontem, hoje, amanhã e depois.

Mais ou menos isso o que quis dizer.

/*
<…> para se entender uma narrativa, principalmente aquelas que quebram paradigmas, é preciso tbm entender de certos códigos e linguagens que sem um estudo passa despercebido <…> .
/*

Também acho isso. Um bom artista/fotografo, hobbista ou profissional, passa adiante em seu registro uma dose de toda sua bagagem nata, vivida e aprendida formal e informalmente, além de também sua técnica, lógico. Acho que apreciar um obra qualquer, incluindo fotografia, passa também por este processo da bagagem que cada um carrega.

Aliás tentei achar, sem sucesso, um artigo ou post em fórum, não lembro, do Ivan Almeida em que ele defende a ideia de que a componente de já nascer com o dom fotográfico é pequena. Achando coloco o link aqui.

/*
<…> gênios só foram reconhecidos décadas e até séculos após a suas mortes <…>
*/

Em uma menor escala de tempo acho que sou um exemplo disso, ou seja nao gostar de algo que passo a reconhecer depois. Quando comecei a ver as pinturas da fase cubista do pintor Picasso achava um m*. Como um artista com aquele peso podia produzir aquele tipo de telas.

Com o tempo esbarrei em um texto com a análise do movimento que explicava/ensinava sua essência. Conclusão, passei a analisar com outro olhar as obras de Picaso desta fase. Ou seja com a nova informação adquirida passei a carregar uma ‘bagagem’ que permitiu ver o que não via antes.

ps. curti muito os vídeos que colocou. O segundo já tinha visto há algum tempo e foi um dos fatores que me fez ver outra dimensão no trabalho de Robert Frank. Acabou sendo uma pitada de aprendizado também.

:ok:

vou colocar dois comentários que fiz em outros posts que acho que caem bem aqui.

outro video sobre o mesmo assunto

“If you only do what you can do, you will never be more than you are now”